A Caçada

A floresta estava obscurecida pela sombra das árvores. O vento era hesitante, não passava de um leve assobio no ar. Ainda assim, fez a pele de Ayla arrepiar-se. 

Ela estava escondida na penumbra, observando atentamente a clareira à sua frente. À espera por aquele cujo seus vizinhos evitavam pronunciar o nome; que reivindicava suas crianças em troca de “proteção” contra o mal do qual ele mesmo causava. 

Ayla o odiava desde que foi capaz de balbuciar.

Ela jamais se esqueceria dos olhos atormentados de sua mãe, a maneira como assustava-se com qualquer ruído da velha cabana em que moravam. Ou das suas mãos trêmulas e frágeis tentando proteger o filho que crescia em seu ventre. 

Não deixe que ele o leve. Ela sussurrava aos deuses repetidamente. 

Ayla não se esqueceria dos olhares que os seguiam o tempo inteiro. Às vezes com pena, outras com alívio por não serem os escolhidos. Covardes demais para fazer algo a respeito. 

No entanto, havia um homem que não se deixava intimidar. Corajoso, e talvez tolo o suficiente para arriscar-se na tentativa de proteger sua família. 

Naquela noite, ele afiou seu machado o bastante para dilacerar com apenas um golpe. Armou-se de todas as facas que conseguiu encontrar e saiu em direção à floresta. Ele nunca retornou. 

Ayla esforçava-se para manter os olhos concentrados ao ambiente à sua volta, porém, eles sempre iam em direção a aquele ponto. 

Não era necessário uma cruz ou qualquer tipo de traço, ela sabia exatamente onde havia encontrado o que restara do corpo do pai.

Por um breve instante, deixou a tristeza dominá-la. Aquela angústia tomou-lhe a garganta, formando um nó. Sufocando-a até escorrer uma lágrima quente por seu rosto. Fechou os olhos por um momento, juntando fragmentos até formar o rosto do qual lembrava. Os mesmos olhos e cabelos castanhos de Ayla, a barba grossa que cobria a parte inferior de seu rosto; os poucos sorrisos que ele reservava somente para ela e a mãe. Era uma ferida incurável. 

E, embora seu coração estivesse apertado, Ayla sabia que essa fraqueza a mataria antes da hora. Ela precisa manter-se firme e forte. Por ele.

Aos poucos, tentou recobrar a máscara de frieza cultivada ao longo dos anos, e guardou aquela dor para mais tarde, para o seu fim.

Então, ouviu o som de um galho partindo, e soube que ele se aproximava. Não aquele de quem ela buscava vingança, mas a isca.

Ninguém ousava sair depois do crepúsculo, todos o temiam mesmo durante a luz do dia. Contudo, o filho do padeiro era tolo o suficiente para não ter medo. Tratava-se de um dos poucos filhos homens que restavam na vila. E o fato de a fera não reivindicá-lo em seus primeiros anos de vida, o fazia se sentir invencível. Essa arrogância, fora tudo o que Ayla precisava para o convencer a encontrá-la ali.

O jovem surgiu do outro lado da clareira, seu cabelo loiro parecia cinza sob as sombras da noite. Vestia as mesmas roupas surradas e  sujas de fuligem que usou em seu breve encontro à tarde, quando escapuliu pelos fundos da padaria para a tomar Ayla em seus braços, que precisou enterrar o rosto no pescoço do jovem para que ele não visse sua expressão de asco.

Mesmo a certa distância, foi possível ver o vislumbre de temor naqueles olhos negros. A inquietação tomou conta de seu corpo enquanto ele buscava por ela através da escuridão.

Ayla fitou o céu, analisando os últimos resquícios das nuvens abandonarem a lua, a luz da mesma funcionando como um farol para o garoto.

E, tão silenciosamente quanto a folha de uma árvore cai ao chão no outono, a criatura adentrou a clareira. 

Apesar de estar em quatro patas, ele era duas vezes mais alto que o jovem padeiro, sobrepondo-o como a sombra de uma montanha.  

Possuía pernas grandes e musculosas, suas unhas afiadas eram maiores que o dedo indicador de Ayla. 

O corpo enorme e robusto era coberto por uma pelagem branca como a neve, os olhos cor de ébano destacando-se, tão humanos quanto os dela.

A fera aproximou-se do jovem, farejando-o. Ele ficou imóvel, apenas suas mãos tremiam ao lado do corpo, os olhos arregalados procuravam por ajuda ao redor da clareira. 

Ayla sorriu satisfeita. 

Ela não vacilou ao pegar uma flecha de sua aljava, posicionar no arco e mirar. 

O tempo pareceu parar. A floresta segurava a respiração junto com ela. 

Quando soltou a flecha, o som ressoou alto e foi seguido por um rugido bestial. Ele cravou os olhos nela com raiva e dor, sem encarar o garoto morto com uma flecha no coração perto de suas patas.

O lobo a atacou. 

Ayla abaixou-se e sacou suas adagas de prata, desviando do golpe por pouco. Mal teve tempo para pensar em seus próximos movimentos quando ele investiu contra ela novamente, os dentes expostos brilhavam com raiva em direção a sua jugular. Ayla desviou por reflexo e tentou acertá-lo, mas não foi rápido o suficiente e ele a atingiu no peito, fazendo com que colidisse com força contra uma árvore às suas costas.

A cabeça dela rodou e Ayla viu estrelas, sangue escorria de sua nuca. 

Usando toda a sua força, arrastou-se em direção a uma pedra grande que estava próxima e a utilizou como apoio. Um pouco cambaleante, conseguiu colocar-se de pé. 

Ele surgiu há alguns passos adiante. 

Rodeava-a cautelosamente, as patas não produziam som algum no chão coberto de sujeira da floresta. Ayla recuou instintivamente, acompanhando o ritmo dos passos da fera. Sua cabeça estava pesada, sangue fresco grudando os fios soltos de sua trança no pescoço. As pernas estavam cedendo, implorando para se deixar cair.

Sabendo que estava cercada, decidiu que seria melhor ser prática e rápida, precisava ganhar tempo. Sendo assim, se posicionou para o ataque, os seus olhos jamais deixaram os da criatura ao atirar a adaga em sua pata dianteira. 

Sem demora, disparou numa corrida pela mata. Seu coração batia forte no peito, audível até para os seus ouvidos. Cada respiração parecia sufocá-la, expirando e inspirando grandes quantidades de ar. 

Subitamente, Ayla sentiu as unhas do lobo arranharem seu braço, gritou de dor e virou-se para olhar a marca das unhas em três fileiras de pele dilacerada e sangrenta. Sentiu-se tonta com todo aquele sangue escorrendo. Sabia que se não estancasse a ferida e cuidasse, morreria antes de dar mais um passo. 

Ela parou, encostou-se numa árvore e analisou o machucado. Precisava de tempo, mas não o tinha.

Assim que decidiu que o melhor seria voltar a correr, foi atingida no ombro e caiu no chão. Ainda segurando seu ferimento, Ayla rolou sobre o cascalho e deparou-se com a sombra dele. Não conseguia ver os seus olhos, pois ele estava com a cabeça direcionada para a parte inferior de seu corpo. Inicialmente não entendeu o que ele estava fazendo, até que ela sentiu as unhas da fera afundarem em sua coxa. Ela mordeu o lábio com força, sentindo o gosto de sangue. Não iria implorar.

Ele afundou mais as unhas, quase até atravessá-la e começou a arrastar o corpo de Ayla de volta para a clareira. Ela se contorceu embaixo do lobo que a ignorou e continuou puxando-a pela perna. Lágrimas involuntárias escorriam dos seus olhos, sendo o único sinal de dor que ela não pôde evitar demonstrar. 

Olhou para a copa das árvores com sua visão borrada e fez uma última prece aos deuses, suplicando para que cuidassem do que restava de sua família. 

Rezou por sua pobre mãe, tão vulnerável e quebrada, que agora estaria sozinha. Rezou pelo irmão que jamais teve a oportunidade de ver este mundo e pelo pai corajoso que um dia tivera. 

É por vocês. Prometeu ela.

Ayla já podia ver a clareira há apenas alguns metros. Era hora de agir.

Mordeu com mais força seu lábio inferior e esticou o braço que não estava machucado até o seu cinto, conseguiu alcançar o cabo de sua espada com a ponta dos dedos. Levantou a cabeça para ver o lobo a arrastando sem olhar para trás. Engoliu em seco e com força puxou o cabo da espada, ele virou-se para ela, os dentes expostos prontos para atacar. Ayla não se deu tempo para pensar e cortou a pata que segurava sua coxa. A criatura soltou um grito estridente que verteu por toda a floresta e machucou os ouvidos Ayla.

Entretanto, ela não perdeu tempo e correu.

O caminho não passava de um borrão escuro à sua volta, os galhos lhe arranhavam as mãos e o rosto ao tentar desviar deles. Raízes sobrepostas das árvores a fazia tropeçar constantemente. 

Sua roupa estava completamente manchada de carmim. O ferimento no braço de Ayla parecia pequeno em comparação a sua coxa, as unhas do lobo ainda estavam presas. Precisou morder seu colarinho ao arrancá-la. Mais sangue escorreu, mas ela não parou, sobretudo quando retirou o arco das costas e ajeitou a flecha nele. 

De repente, algo grande colidiu contra ela pela lateral, e numa tentativa de evitar ferir-se, jogou o arco para o outro lado no último instante e tentou usar os braços como proteção do impacto no chão, que a fez perder o fôlego.

Ao olhar para cima, deparou-se com o lobo a encarando furiosamente. 

Aqueles olhos soturnos presos nela ao abrir a boca, o hálito asqueroso esquentando seu rosto. Ela observou a fileira de dentes afiados abaixar e fechar-se em seu ombro, à medida que enfiou sua espada no coração da fera. 

Sangue escuro escorria nas mãos ensopando sua túnica. Mas não se importou, sequer notou quando o lobo deu sua última respiração ao cair inerte sobre ela. 

Ayla apenas deixou os braços tombarem ao lado do corpo e esperou pela própria morte iminente. O olhar fixo no céu. Recusando-se a deixar esse mundo, observando qualquer outra coisa que não fosse aquilo que seu pai mais amava. Ayla desejou que tivesse sido a última coisa que ele viu também, por mais brutal que tenha sido o seu fim.

Ela não soube dizer quanto tempo permaneceu imóvel sob o cadáver do lobo, talvez tivesse passado alguns minutos ou horas. Ela não sabia. Tampouco compreendia porque ainda estava viva.

Aplicando toda força que lhe restava, empurrou o corpo do lobo para o lado e verificou o próprio, testando seus movimentos cuidadosamente, precisava terminar o que começou. 

Levantou-se com certa dificuldade, segurou o animal pelas duas patas traseiras e o arrastou de volta para a clareira, deitando-o ao lado do corpo do filho. Em seguida, juntou uma pilha com galhos e folhas secas, os cobriu e ateou fogo aos corpos, assistindo-os queimar até restarem apenas ossos. 

Por fim, os deixou ali. Do mesmo modo que o padeiro fez há cinco anos atrás com os restos de seu pai. 

Então, caminhou de volta para a vila perguntando-se sobre por que os seus ferimentos pareciam ter desaparecido e por qual razão tudo o que restava de sua caçada era a marca de dentes em seu ombro. 

Paola Bittencourt
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