Apagão

Tinha chego na balada fazia pouco tempo, tentei curtir o som mas não gostei do que estava tocando. Tomei uma cerveja e então fui procurar uma boca pra me distrair. Logo reparei numa garota de dreads perto do banheiro feminino. Decidi não me acovardar e cheguei nela. As primeiras palavras que eu ouvi dos lábios dela foram “não vai rolar”. Insisti mais um pouco, pedi um porquê e então ela disse que não daria certo, pois gostamos da mesma coisa. “Você curte mulher?”, perguntei. Ela apenas balançou a cabeça positivamente. Deixei ela lá, encostada na parede perto dos banheiros paquerando as garotas que se aproximavam e fui atrás de um novo alvo.

Encontrei a nova presa no fumódromo. Ela parecia uma maria-fumaça com o cigarro, o que pra mim não era muito excitante, mas era uma ruiva linda. Tinha dois caras junto, que intercalavam entre beijarem-se e conversar com ela. Num momento em que eles começaram a se amassar mais prolongadamente eu me aproximei. Cumprimentei e ela respondeu, parecia receptiva.

Fui pelo caminho básico, falei sobre o lugar e perguntei se ela estava sempre por ali. Um dos amigos dela respondeu que era a primeira vez deles ali. Nós todos nos apresentamos. Os caras pareceram afim de empurrar ela  pra mim. Na verdade, acho que eles estavam era querendo se beijar com desencargo de consciência por estar deixando a menina de vela. Ótimo! Conquistar a aprovação dos amigos é igual metade do caminho andado. Ela mal havia terminado um cigarro e pegou outro; me ofereceu e eu disse que não fumava. Ela fez uma cara de quem diz “coitadinho”. Os caras voltaram a se pegar, ela olhou pra eles, deu um trago no cigarro e disse “e aí?”, me intimando. Avancei pra um beijo e ela recebeu meus lábios sem hesitação, então soltou a fumaça, que eu nem tinha percebido que ela estava segurando, direto na minha garganta.

Me afastei tossindo pateticamente e ela riu feito doida. Fiquei sem graça e também não achei graça. Já não quis mais a fumante, falei que ia pegar alguma coisa pra beber e voltei pra dentro do clube. Peguei uma longneck e decidi ir pra pista descobrir o que eu podia encontrar por lá além da música ruim. Comecei a atravessar pelo meio da galera à procura de alguma menina que me despertasse um mínimo interesse, mas isso só deixou claro que eu tinha bebido pouco. As mais bonitinhas já estavam pegando alguém e fora elas, as outras eram todas zoadas. Tinha uma até gata, mas estava pagando maior vexame dançando “Quadradinho de 8” ao som de um indie rock, então eu nem foquei. Voltei pro balcão, virei a cerveja e pedi uma vodka com energético. Geralmente eu não agia dessa maneira, não ia pras festas com essa necessidade de dar uns amassos, mas nesse dia tinha alguma coisa muito errada comigo. Eu precisava extravasar.

Foi quando eu estava no balcão que chegaram uma moça e um rapaz do meu lado, pediram duas margaritas e começaram a conversar sobre o quão ruim eram as músicas que o DJ estava tocando. A garota viu que eu estava olhando para eles e puxou papo perguntando sobre o que eu tinha achado da playlist. Falei que estava horrível, que estava faltando músicas mais agitadas ou pelo menos mais conhecidas. A garota era muito bonita, fiquei bravo de não ter visto ela mais cedo. Tinha charme, estilo e um sorriso lindo.

Nós três entramos numa conversa legal sobre bandas e gostos musicais e descobrimos que tínhamos muito em comum. O cara que estava com ela já havia ido pra Inglaterra e visto o show da minha banda preferida, que por sinal, também era a preferida dele. O cara era boa pinta também, tinha mais ou menos a minha idade, barba e porte de modelo. Além de um ótimo gosto pra música. Se eu também curtisse rapazes certamente ele seria um alvo.

Eles tomaram o drink deles, eu tomei o meu, conversamos mais, rimos e concordamos em tomar uma rodada de tequila. Foi o suficiente pra soltarmos os freios. Descobri que os dois eram só amigos coloridos e não um casal de namorados como eu havia pensado à principio. Fiquei ainda mais empolgado. Conversamos mais, bebemos cerveja e fomos doidos o suficiente pra pedir uma segunda rodada de tequila.

Depois o cara contou que estava com “padê” no bolso. Nos entreolhamos. Topamos. Fomos até o banheiro, primeiro entraram ela e ele, estava pensando que eles estavam demorando quando ela saiu deixando a porta aberta e falou que era minha vez. A lésbica que eu tentei pegar no começo da balada estava por lá ainda e me deu um sorriso de compreensão.

Entrei e três carreiras estavam prontas, perguntei porque e ele disse que a menina acabou nem cheirando, disse que quando ela fica bêbada, fica tarada e que eles tinham brincado um pouco durante aqueles cinco minutos em que eu fiquei na espera pra entrar. Então ele assumiu um ar estranho e disse com tom sacana na voz que quando ele ficava bêbado também acontecia o mesmo. Chegou em mim já com a mão subindo pela minha coxa. “Cara, não curto homens”. Ele se afastou na hora e pediu desculpas, disse que achou que eu fosse pelo menos bi. Eu disse que achei que ele fosse hétero e ele disse que não, sorriu e falou que eu podia ficar com a carreira da garota, uma pra cada narina. Eu insisti que não mas ele era mais teimoso. Fiz.

Agora cá estou eu: perdido, pelado, dolorido, zonzo e com um corpo desacordado do meu lado, numa casa que nem é minha.

Noite esquecível ou inesquecível?
Ainda não consegui decidir, ainda estou tentando lembrar…

João Carlos Mafetoni
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