APARÊNCIAS

Eles simplesmente se esbarraram em uma praça da cidade depois de muito tempo sem verem-se ou comunicarem-se.

 – Quanto tempo!? – Disse ele não sabendo esconder a animação. Na verdade ele nem se preocupava com isso. Ela por sua vez sorria com um pouco de alegria, mas nada demasiado como ele. Talvez porque o encontro não fosse tão significativo para ela quanto era para ele.

– Bastante, não? – Disse ela retoricamente enquanto ele a envolvia em um abraço. Logo que ele a soltou ela falou:

– Como você mudou.

Ele sorriu.

– Você também. Parece até outra pessoa.

Então o silêncio os pegou. Ela não se sentia à vontade em puxar assunto e supunha que ele o faria, por isso esperou. Havia certa ansiosidade no olhar dele.

– Bem, eu vou indo.

– Quê?

– Vou indo. Tenho que… – um breve intervalo onde ele olhou para trás e continuou. – Ir…

Lana percebeu que ele não ia dizer “ir” e improvisou a palavra de última hora. A curiosidade mexeu com ela.

– Ah, mas eu também já estou indo – Ela disse com empolgação iniciando um plano infalível e virando-se para o mesmo lado que ele. André a olhou com desconfiança:

– Mas você não estava indo pra biblioteca? – Disse ele apontando para trás com o dedão.

– Não, eu só ia comprar uma pipoca… – Mas isso era uma meia-verdade, porque Lana ia comprar uma pipoca, mas de qualquer modo era para aquele lado que ficava a Biblioteca Municipal para onde ela sempre ia segunda-feira à tarde.

– E não vai mais? – Apesar do tom leve que ele usou, ela se ofendeu com a pergunta e ficou nervosa.

– Ok, André, esquece tá bem? Tchau! –  Disse e virou-se com raiva começando à caminhar.

– Tchau, Lana! – Ele disse alto e calmo.

Ele seguiu seu rumo sem olhar para trás enquanto ela olhou três vezes.

“Que idiota!” ela não pode deixar de pensar, até esboçava um sorriso quando uma brisa fria soprou-lhe o rosto junto com o mistério de como ele sabia onde ela pretendia ir. Ela se arrepiou, encolheu-se por instinto e colocou as mãos no bolso da jaqueta. Então notou um papel dobrado ali dentro onde antes nada havia. Ela desdobrou e era uma carta.

Começou à ler e então lágrimas escorreram de seus olhos ao ler a última frase que André lhe deixou:

“Amo quem você foi, quem você é e desculpe por não ter coragem para ficar aqui para amar a pessoa que você irá se tornar.

Com carinho, André.”

Ela se virou uma quarta vez na tentativa de encontrá-lo, mas como fumaça em meio à multidão ele já havia desaparecido.

“Que idiota… Que eu sou!” – ela pensou.

Então uma de suas lágrimas caíram em uma poça d’água e viu seu reflexo desaparecer, acordando do pesadelo em seguida com o homem que amava, mas vinha pensando em largar deitado ao seu lado.  Lana abraçou ele forte, reconhecendo o erro e que o significado que ele tinha pra ela era maior do que havia se dado conta.

João Carlos Mafetoni
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