IMPULSO

Quando ele saiu de casa não se despediu de ninguém.

Levantou cedinho naquele sábado, pegou uma coisa ou outra que faltava e antes que alguém levantasse ele já estava na estrada. Mochila nas costas, barba mal feita e braço esticado pedindo carona conforme os veículos passavam.

Um caminhão parou. Os dois se cumprimentaram e então o motorista voltou para a pista.O homem quis saber quem era aquele jovem, pra onde ia e só, mas durante a viagem entraram num diálogo sobre a vida na estrada, a família e a saudade que costumava visitar.

Por alguns momentos ambos sentiram como se seus corações estivessem em algum outro lugar.Ao desembarcar o caminhoneiro lhe deu uma fitinha de Nossa Senhora e desejou sorte na viagem, o rapaz aceitou agradecendo por ter chegado mais longe na sua jornada sem destino certo.

Era uma cidade pequena e ele saindo do posto foi até uma loja que avistou próxima dali para comprar uma caneta, pois embora tivesse trazido seu diário, havia esquecido daquilo que precisava para anotar tudo o que estaria vivendo e sentindo na aventura a qual se propôs.

A atendente era simpática e de alguma forma lhe fez se lembrar da sua irmã mais nova.

Assim que saiu da loja sentiu no ar o cheiro que vinha do restaurante ao lado e por um momento pensou em usar parte das suas economias para uma refeição, mas logo lembrou que isso não era o que ele tinha planejado.

Viu uma praça ali nas redondezas e resolveu que iria sentar num dos bancos e colocar no papel tudo que estava na sua mente até aquele momento:

"Sinto que ainda é cedo para começar a escrever, o sol ainda está alto, o céu aqui está limpo e por mais distante que eu esteja de casa sei que poderia voltar facilmente para lá.

A saudade mesmo assim já chegou, não quis esperar os ponteiros do relógio avançarem mais. É uma saudade gostosa, daquelas que não se sofre, apenas se lembra com afeição. Um tanto estranha sim, se eu considerar que até ontem não via a hora de sair daquela casa que parecia estar para desmoronar a qualquer momento por causa da minha relação tempestuosa com a minha madrasta.

Enfim, escolhi deixar tudo isso pra trás e sinto que vou amadurecer muito com essa decisão.

Vejo à minha frente um mundo ainda desconhecido e espero descobrir tudo o que há de bom nele..."

Sua barriga roncou e ele lembrou que só havia comido uma maçã desde que acordou.

Fez uma última anotação:

“Com ou sem despedidas… A saudade acerta igual”

E então fechou o diário.

João Carlos Mafetoni
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