Jill e Maia

O amor dignifica o espírito.

PARTE 1: MEDOS

Jill era como um lago calmo, um daqueles escuros e misteriosos, mas também muito belo. Ela era uma ótima companhia, boa ouvinte e Conselheira. 

Corajosa, não de entrar numa caverna sozinha e sem lanterna – até porque ela tinha um pouco de medo do escuro – mas aquela coragem de dizer “vai ter que passar por cima de mim primeiro”, de enfrentar qualquer um para proteger quem ama.

Maia era diferente, era inconstante e intensa como o mar. Seus sorrisos facilmente viravam gargalhadas e suas lágrimas saltavam sem pensar duas vezes de seus olhos. Não tinha nenhum medo de expressar o que sentia ou pensava. Era sincera e corria persistentemente atrás do que ela queria até que alcançasse… Ou deixasse de querer.

Um dia aconteceu que Maia quis ser amiga da garota tímida que se mudou para a casa ao lado. Na primeira oportunidade, puxou papo com a nova vizinha. Jill foi bastante receptiva; mesmo um pouco acanhada, ela estava ansiosa pra conhecer alguém legal na cidade nova.

Maia conseguiu ser esse alguém. Havia algo complementar na personalidade das duas. Passaram-se apenas alguns dias e elas já conversavam com a empolgação de amigas de infância. E depois de um mês, já dividiam medos, sonhos e contavam seus segredos e pesadelos mais sombrios uma à outra. 

Jill queria ser psicóloga ou política, morava no interior de São Paulo, nunca havia beijado na boca e aos quinze anos, perto de seu aniversário um funcionário da fazenda que à vira crescer à molestou enquanto ensinava ela à andar de cavalo, alisando-a onde não devia.

Na primeira vez, ela se segurou no medo do ridículo, perdeu a vontade do hipismo, mas quando alimentava os cavalos no curral e o abusador chegou mostrando lhe o órgão genital, a única coisa que pode fazer foi correr para a casa e gritar para sua mãe o que estava ocorrendo.

O pai dela quase deu um fim no crápula com as próprias mãos enquanto o sangue subia aos olhos ouvindo as desculpas esfarrapadas de que ele ia mijar no curral, de que nunca teve segundas intenções, mas os pais conheciam a filha e entenderam como as peças se encaixavam.

Da expressão sangue nos olhos, veio à tona o sangue na mão que espirrou do sujeito após tantos socos que levou, mas ao invés de pegar a arma guardada em casa, o pai dela segurou-se um momento e pediu que a esposa chamasse o delegado.

O ex empregado foi preso por causa disso, mas as cicatrizes dele eram físicas, já a de Jill e sua família foram muito maior. Resolveram vender a chácara e ir morar mais perto da capital.

No aniversário de dezesseis anos Jill chegou na casa nova, ao lado de Maia, que não só se chocou com o caso como também tinha seus próprios dilemas aos dezessete anos e resolveu abrir seu diário pra contar à amiga.

Maia não passara tanto por abusos de outros, mas extrapolou os limites de si mesma quando começou a se envolver com drogas ilícitas e se permitir vivenciar quase tudo que lhe ofereciam.

Foi experimentada por dois homens juntos anestesiada por cocaína e usara até lança perfume com um amigo colorido que achou que iria namorar ela, mas na verdade só a tinha como um objeto que manipulava por ser mais velho seis anos que ela e ser perito em ludibriar.

Um dia foi pega roubando doces em uma farmácia com o grupo que dizia ser sua gangue enquanto ainda estava sobre efeito de Cloro, mas os “amigos” fugiram, um ainda à xingou de burra pelo flagrante antes de empurrar o atendente para correr pela porta enquanto ela ficou estuporada, estática e se encolheu no chão.

Aceitou se internar numa clínica depois que a polícia contatou os pais dela, pois não queria mais ser vista por ninguém de tanto desprezo que teve por si mesma quando começou a se limpar das químicas.

A dependência que havia começado como curiosidade aos 16, havia se transformado numa batalha mental que ela só conseguira vencer três meses antes de Jill chegar na casa que estava à venda, ao lado da dela.

Não sabia mais o que queria ser, mas em seu diário percebeu-se novamente uma sonhadora se redescobrindo e abrindo-se pra vida e para a sua nova melhor amiga.

João Carlos Mafetoni
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