Me Deixe Sair!

1

O dia entrava morno pelos vãos da cortina. Nos feixes de luz, as partículas de poeira dançavam diante do seu olhar ainda distante pelo sono. A vida ia se fazendo calor pelos seus membros adormecidos, e corria como uma matilha de lobos selvagens dos pés à cabeça, trazendo os primeiros pensamentos.

Tocou os pés inchados no tapete felpudo, abriu os braços e soltou um som abafado e rouco. Vestiu as chinelas e caminhou com os ombros baixos, a calça deixando as nádegas à mostra. Mais um dia no mundo, mais um maldito dia… L. mirou a face cheia no espelho, atentou especialmente para as bolsas sob os olhos mortiços. Era um homem, seus trinta e tantos anos, arrastando a barriga por inércia, um pouco por vontade, um tanto por teimosia. Mas a vida..que vida era aquela de arrastar-se entre as pessoas, comer, muito, e dormir mais ainda? Não se perguntava mais, mas sabia no fundo que na sua vida, nele mesmo, era como se tudo estivesse fora do lugar.
Colocou a escova preguiçosamente dentro da boca. A escova ia para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo. Sempre na mesma ordem, sempre com a mesma indiferença de quem apenas espera a hora de deixar tudo. Tomou suas três pílulas. O antidepressivo estava no fim, tinha que marcar uma consulta, pegar outra receita. Era só isso, apenas suportar quimicamente aquele arremedo de existência.

Levantou a cabeça e ficou a observar o olhar azulado. Mas espere! Seus olhos eram castanhos. Mas certamente um olhar azul o observava a partir do espelho. Jogou água na cara na tentativa de acordar o que quer que estivesse dormindo. Pensou que os remédios estavam mexendo com sua cabeça. Mas não era para isso mesmo que serviam esses remédios? Mais um pouco de água e quando ele olhar para o espelho, tudo estará como antes. Não que fosse uma má coisa ter olhos azuis. Embora isso soasse como pôr pérolas num vaso sanitário. Mas o misterioso olho direito azul estava lá. Aquele olhar infinito, com uma beleza feminina. Uma beleza feminina? Duas palavras com quase nenhum sentido para ele.
-Eu quero sair.
Estava louco, pensou. Não eram os remédios, era a ausência de efeito dos remédios. Pensou ter um ouvido uma voz feminina dizer “eu quero sair”.
-Não é nada, só efeito dos remédios, só isso -disse em voz alta- já vai passar, já vai passar.
-Me deixa sair! -Ouviu novamente. Era uma voz jovem e algo agradável. Nada do seu tom rouco, da sua voz sempre dita para dentro. Resolveu fazer o jogo da sua cabeça.
-Quem quer sair de onde?
-Eu quero sair. Sair daqui. Eu quero ir tomar um sol, sentir o vento, tomar um sorvete, sair com amigas, namorar.
-Ora, saia então. Que tenho eu com isso dona alucinação?
Pensou ter ouvido um som. O vizinho? Mas havia um som, um som bonito, violino. Era uma música, Primavera, Vivaldi. Certo, agora sabia que era alucinação.
-Ei, vai me deixar sair ou não?- Insistiu a voz, agora num tom mais elevado. -Eu quero sair daqui porra! -Gritou.
-Sair de onde? Quem quer sair? Pode sair, que tenho eu com isso sua maluca?
-Maluca, eu? Olha quem fala, o cara com mais de trinta anos que mora com a mãe, que nunca teve uma namorada e que coleciona embalagens de antidepressivos. Me deixa sair, ou eu juro que vou aí e arrebento essa tua cara!
-Sai fora ô nervosinha! Vou te ignorar, assim você desaparece.
E começou a assoviar a nona de Beethoven.
A mãe gritou algo da cozinha, ele respondeu com um grunhido.
-Lá, lá, lá…
-Vai me deixar sair ou não?
-Não falo com pensamentos gordofóbicos. Lá, Lá, lá…
-Espere. Nada a ver isso aí. Não é preconceito, é só que você faz da nossa vida uma coisa mais triste do que ela devia ser, e eu quero um pouco de sol, um pouco de alegria. Eu não tenho culpa se você prefere afundar nessa autocomiseração…
-Ah! Já entendi! É a voz da minha médica. A Doutora P. Tinha que ser, eu sabia que conhecia isso.
-Doutora P.?

O olho azul ainda estava lá, fitando-o com irritação. Era um olho direito muito bonito, admitia. A imagem, notou, parecia meio desfocada. Não. O olho estava bem claro, mas o resto, ele mesmo, estava borrado. Firmou o olhar, mas o efeito prosseguia. Correu até o criado-mudo e apanhou seus óculos. Voltou e firmou o olhar. O olho azul o encarava, mas todo o resto era um borrão. Voltou a jogar água na cara. Nada. Molhou os cabelos. Nada ainda. Mas espere! Parece que algo se forma ao lado do olho. Um outro olho azul. Agora os dois olhos eram azuis. Embaixo dos olhos foi aparecendo um nariz fino. E sob o nariz um lábio superior muito bem definido. A parte inferior do lábio começou a se formar. Ele teve que admitir que aquele era um bom par de lábios. Carnudos, bem delineados. Logo depois surgiu o queixo, daqueles bem suaves, com uma leve reentrância no meio. As bochechas já estavam formadas, o lábio carnudo sorria, e nelas, nas bochechas, havia duas marquinhas, dois furinhos emoldurando o sorriso. E o resto? Sobrancelha alinhada, bem fina, assomada por uma testa lisinha, e ornamentada por umas mechas de cabelos levemente ondulados, soltos dançando de um lado para o outro. O sorriso permanecia, mas agora havia um corpo de mulher nem magro nem gordo. Exceto pelo cabelo caindo sobre os ombros, não havia nada que lhe cobrisse o corpo. Os seios apontavam para frente, com seus bicos rosáceos quase saindo pelo espelho. O ventre descia regular até uma pequena floresta dourada. De onde estava, via os pelos clarinhos eriçados nas suas pernas e braços. Mas tudo era absorvido pelo sorriso, um sorriso cheio de dentes brancos.

-Que foi? Perdeu a língua? Agora podemos conversar cara a cara. E como o tempo urge, quero logo que VOCÊ ME DEIXE SAIR!!!!
Isso, fique registrado, foi um grito que quase fez com que ele saltasse para debaixo da cama. Colocou as duas mãos sobre a cabeça, um tanto para manifestar sua surpresa, outro tanto para ver se a imagem acompanhava. Não acompanhou. Era autônoma, como se o espelho fosse uma tela para um outro mundo. A imagem continuava lá, com as mãos na cintura nua e o sorriso confiante. L. sabia que precisava decidir se aceitava a alucinação ou a ignorava.
-E aí, o que vai ser? Disse a imagem, inclinando levemente a cabeça num jeitinho que quase o conquistou.
-Eu já disse, saia. Eu não tenho nada com isso. E aliás, nem sei como fazer para que uma alucinação…
-Epa! Que alucinação o que ô meu! Do meu ponto de vista você é que não é real. A coisa é simples, você me deixa sair, e vai curtir a sua amargura existencial num cantinho escuro da nossa mente.
Aquilo o irritou. Ela decididamente esperava que ele saísse de cena. Então era óbvio que se tratava de uma apropriação de corpo e…ela disse “nossa mente”?
-Olha moça pelada cujo nome não sei, eu tenho que sair para trabalhar, tive uma noite pesada e tenho aí umas nove horas de trabalho pela frente. Então se a senhora não se importa, eu gostaria que voltasse lá para o País das Maravilhas, ou a Terra de Oz e me deixasse em paz, EM PAZ! Está ouvindo, sua alucinação do ca…
-Nossa! Você beija sua mãe com essa boquinha? Certo, vamos começar de novo. Eu quero sair. Acho que você está fazendo uma péssima utilização da nossa vida, e eu não quero passar meus dias assim nessa penumbra, sem amigos e sem coisas interessantes para fazer. Vamos lá meu chapa, me deixe sair.
-Por que você fala, alucinação, da minha vida como se fosse nossa vida? Era só o que me faltava, além de depressão, agora tenho esquizofrenia…
-O que você tem é esquisitofilia! Você não é doente cara, só quer estar doente. Não tem nada com a sua mente, ou melhor, não tem doença. A única coisa nela sou eu, uma personalidade que não curte essa sua parada aí e que tem o direito de viver de outro jeito.
-Então saia, pegue sua bunda branca -disse ele irritado- e vaza da minha cabeça, do meu espelho e da minha vida. Só não espere que eu faça algo, porque eu não tenho a menor ideia do que você está falando, nem pedindo.
-Ora, não se faça de desentendido. Eu quero sair, e para sair eu preciso que você me deixe sair. Na verdade eu sei como fazer, mas se você concordar fica mais fácil e mais rápido.
-É? E como eu faço isso, onde está a porta que eu devo abrir?
-Na verdade é muito simples.
– Você fica repetindo isso, “na verdade”, “na verdade”…alucinação, e não me diz como.
-Meu nome é K.
-Então K., como eu me livro de você?
-É só desistir da sua vida.
-Como???
– Oras, é só d-e-s-i-s-t-i-r dessa bosta de vida que você tem.
-Então você quer que eu me suicide?
-Suicídio? Claro que não, seu besta! Aí eu morreria também. O que eu quero é que você desista de estar aí fora, de decidir e comandar o que fazemos com nossa vida. Eu quero que você me dê o controle de tudo.
-Para mim isso parece suicídio.
-Mas não é. Você continua do jeitinho que gosta, e eu vou curtir a vida.
-Olha K., eu não devia dar atenção para um negócio que deve ser uma mera alucinação da minha cabeça, mas vou seu direto e sincero: Vá à merda!
Bateu no espelho com a mão enrolada na toalha de rosto.
E saiu do banheiro batendo a porta.
No chão os pedaços do espelho. O olho em um pedaço. Em outro, os lábios. E o sorriso em todos.



2

L espancava o teclado freneticamente tentando pôr em dia o trabalho atrasado. Os pensamentos iam e voltavam daquela manhã no banheiro. Não era assim tão difícil aceitar que uma pessoa que empurrava para dentro do seu corpo um punhado de comprimidos todas as manhãs acabasse por sentir algum efeito colateral. Só podia ser isso. Estava mexendo com o cérebro, e o cérebro estava reagindo. Existia L, só L e K não passava de um sonho.

L levantou o olhar da tela. Cruzou, de novo, com o olhar de P. Era a terceira vez que isso acontecia.
-Que foi? – Perguntou.
-Que foi o quê?- Retorquiu P.
-Por que você tá me olhando desse jeito estranho?
-Não estou te olhando de um jeito estranho, só estou te achando diferente e não sei dizer por quê.
L não respondeu. Levantou e foi pegar um café. Um café era o que precisava. No caminho passou pela porta de vidro do chefe, J. Mas o quê? Voltou um passo. Uma jovem oriental o observava na porta. Mas era um reflexo? Parecia um reflexo. Ou estava dentro da sala? Esticou a mão trêmula e abriu a porta. J, sentado, não levantou os olhos do computador.
-Diga!
-Estou procurando a japonesa.
J olhou para ele por cima dos óculos.
-Que japonesa?
-A que estava aqui com você.
-Não tem japonesa nenhuma aqui – E voltou a olhar para a tela.
L permaneceu alguns segundos ali sem saber o que fazer, deu uma boa olhada no interior da sala. Nada. Então fechou a porta devagar. Quando a porta encostou no batente, foi soltando levemente o trinco para não fazer barulho. Um reflexo?
-Que feio!
L ouviu claramente. Era a voz de K. Mas em vez da garota de olhos azuis, uma jovem oriental ria para ele a partir da porta. E se eu apenas ignorar?- pensou.
-E como é que se ignora alguém que está dentro de você?- Perguntou com um ar divertido.

L deu dois passos atrás, o coração batia acelerado e ele sentia que podia desmaiar. Estava louco? A depressão tinha se tornado esquizofrenia? Já lera que as doenças mentais não eram exatamente campos fechados e que dentro de certos limites alguns sintomas podiam ser compartilhados por distúrbios diferentes. Bipolares, borderliners e esquizofrênicos andavam muito próximos uns dos outros e todos podiam ter delírios e alucinações. Certo, isso ele sabia. Então era melhor não se entregar à paranoia. Estava tendo alucinações, era sua mente buscando um refúgio fora da realidade. Não existiam duas Ks.

-Não existem mesmo, eu sou a única.

E se ele fosse visto falando sozinho? Aí sim iam achar que estava louco. Correu para o banheiro. Lá dentro, a K japonesa o esperava no espelho.

-Estou tendo uma alucinação – repetiu para si mesmo-você é fruto da minha cabeça, é uma reação do meu cérebro aos remédios.
-Não meu bem. Eu existo, estou bem aqui e vou sair. Eu esperava poupar a nós dois de um conflito desgastante, mas você não me deixa outra opção.
-Olha alucinação número 2, eu sei que você é fruto da minha doença…
-Você não é doente. Os doentes estão lá fora. Você simplesmente não aceita a realidade e cria essas limitações todas para a nossa vida. Isso nos deixa infelizes, mas o que você não entende L é que não precisamos disso.
-Hoje de manhã tinha olhos azuis, agora é uma japo…
-Chinesa. –Atalhou K.
-Tanto faz. Você não é real. Então escute cérebro, eu sei que você está puto da cara comigo, que os remédios estão te afetando, mas o que eu quero é equilibrar nossa química cerebral, assim que isso acontecer, eu volto a ter uma vida normal.
-Normal? Normal é você se recolher, e me deixar organizar essa bagunça que você fez. Eu tentei chamar a sua atenção várias vezes, mas você não me ouviu.
-“Várias vezes”? Eu só soube de você hoje de manhã.
-Hoje de manhã? Não. Por favor! Vai dizer que não notou as mudanças físicas?

Ele notara. Sentia uma dor estranha logo abaixo do umbigo que irradiava para a lateral do corpo e para as costas. Era como se algo, dois ganchos, o puxassem para baixo. E sentia uma ardência no peito, seus mamilos estavam inchados e ele tinha uma vontade quase irresistível de espancar estranhos na rua.

L levantou as mãos quase inconscientemente para os seios. Encheram-nas. K deu um sorrisinho sacana. A respiração de L estava rápida, ele engolia o ar em golfadas, mas era como se não conseguisse respirar. Sentia-se um peixe que acabara de ser tirado da água. Firmou os olhos e viu além de K o seu próprio reflexo. Estava diferente, muito diferente do que jamais fora. Os olhos estavam mais afastados, e muito maiores. Os lábios não eram finos, nem havia sardas no rosto. K o observava divertida. Seu olhar o desnudava, sentia os pelos eriçados, uma mistura estranha de pavor e desejo. Os bicos dos seus mamilos se elevavam intumescidos por entre seus dedos, e era como se suas pernas estivessem derretendo, enquanto um rio represado forçava a saída por entre elas. L gemia e o suor inundava seus olhos irritando-os de leve. Agora a respiração estava mais suave, alongada e com pausas mais distribuídas. L fixou-se no riso sensual de K.

-Está sentindo L? Isso é a vida libertando-se. Vida L!

L abriu a porta do banheiro, meio cambaleante, com uma mão sobre o seio. Encostou-se na parede do depósito tentando recuperar o fôlego. Alguém se aproximava, tentou aprumar-se. Era P.

-Olha – começou P- quero me desculpar com você.
-Tudo bem. Não tem problema, as coisas andam estranhas ultimamente, e nem eu me entendo.
-Sabe- continuou P com um olhar que L não conseguia decifrar- a gente trabalha juntos faz um tempão, e tem umas coisas que eu nunca te disse.
L começou a suar de novo. O que aquele cara queria com ele? Sentia medo, e junto com o medo algo ainda mais indecifrável que o olhar de P.
-Olha, L, eu sei que você está tendo dias ruins, mas quero que você saiba que estou ao seu lado. Não me julgue, por favor, mas tenho pensado muito em você ultimamente.
-Pensado em mim? Como assim P?
-Ora, você sabe, eu percebo seu olhar.
-Eu não sei nada! E é você que estava olhando estranho para mim hoje.
-Escuta, vamos ser sinceros, você e eu, eu acho você muito atraente e…

L empurrou P com toda força. O outro bateu na parece do outro lado do corredor, e ficou ali olhando-o com os olhos esbugalhados e um esgar nos lábios emoldurados por um cavanhaque bem aparado. P tentou dizer alguma coisa, mas L saiu correndo pelo corredor, pela porta do escritório, pela rua. Cinco quadras depois L ainda corria. Alguém grita. Pneus derrapam, um cão late. O mundo gira, sobe e desce. Um baque surdo. O céu azul vai se fechando, até que tudo dorme numa escuridão sem vozes.

3

A escuridão sem vozes foi crescendo, se adensando, criando raízes, espalhando-se numa distância imaterial, subindo em fibras que se alongavam e se enrolavam numa dança sensual de serpentes acasalando e lançando galhos para dentro do nada, de onde folhas emergiam, sorvendo uma luz inexistente, e lançando-se como flores de onde explodiam estranhos frutos no silêncio.

O mundo ao redor tinha mãos frias com dedos longos que acariciavam o corpo imóvel de L. Aos poucos ele foi tomando consciência de si, e a escuridão já não parecia mais tão silenciosa. Ele apoiou as mãos num chão indiscernível e levantou a cabeça e o que pode do tronco. Ele entendia que a sua face estava voltado para o “chão”, e que acima de suas costas estava o teto, o céu, ou seja, lá o que houvesse para cima. Entendia que havia um lado esquerdo e um direito. E mesmo assim ele sentia como se nada ao seu redor fosse de fato “cima” ou “baixo”. Era uma estranha desorientação que enchia seus sentidos, mas escapava da sua razão. Lembrou-se dos astronautas em microgravidade, dele mesmo no fundo de uma piscina. Tinha doze anos.

A calma era imensa, e havia o silêncio. Ele gostava de fazer isso com os olhos fechados, sentir a água, a sensação de ausência de peso, e a massagem ao redor do seu corpo. Isso ele sabia que era ilusão, não tinha como sentir a água parada massageando seu corpo. Mas gostava de pensar que era assim, como se umas mãos invisíveis estivessem ao seu redor. Lastimava a bronquite e a pouca capacidade pulmonar. Se pudesse escolher um superpoder, seria o de permanecer indefinidamente sob a água. A tia algumas vezes já o flagrara imóvel no fundo da piscina. E o seu mundo aquático era perturbado por um tio, um primo, um vizinho. Houve tempo em que proibiram sua entrada ali sozinho, mas ele sempre dava um jeito de burlar as regras da tia.

Um dia ele mergulhou mais do que devia no seu mundo interno. No início achou que seus pulmões iam explodir, mas a sensação era tão boa, tanta calma. Sentiu-se flutuando para dentro de algo indefinível. Encontraram-no sem sentidos. E durante muito tempo sua mãe achou que ele tinha alguma lesão no cérebro por causa da privação de oxigênio. Ele achava que não, mas não tinha certeza.

L ainda não via nada, mas sabia que havia um corredor. Um corredor muito longo, talvez infinito. Ele conseguiu ficar em pé. Ou achava que estivesse em pé. Não tinha certeza.

Pareceu ver uma luz muito distante, e sons que não eram sons, mas vibrações pelo espaço. Cambaleou na direção do que supunha ser luz. Ele agora pensava de modo mais claro, lembrava de ter saído do escritório e corrido para longe. Sentia vergonha e confusão. Como P podia ter dito aquilo? Como ele ousou ter pensado aquilo? Arrependeu-se de não ter espancado o outro, um empurrão era pouco. Mas P merecia isso? É certo que o ofendera, mas mostrara algum afeto que era diferente do que ele estava acostumado com a mãe, a tia e todos aqueles outros parentes estranhos. Sentira aquilo antes, foi na piscina.

Mas não era como se a água tivesse afeto por ele. Ela permitia que ele sentisse um afeto que estava além da sua compreensão. Então lembrou do olhar azul. E dos olhos puxados. K invadiu a sua vida. Era culpa dela, a confusão, a dor que agora sentia pelo corpo. Isso o confundia, não eram ilusões? Agora não sabia. Então ele ouviu o gemido.

Vinha de algum lugar à sua direita. Era um som abafado, doloroso. Havia uma porta. Ele alcançou a maçaneta. Estava destrancada. Abriu e entrou. Era uma sala pequena, cinza do chão ao teto. No meio da sala havia uma cadeira, e alguém amarrado. O coração de L acelerou, suas têmporas saltavam. Aproximou-se. Não acreditou no que viu. Não podia ser. Mas era. K estava amarrada na cadeira.

Ela levantou a cabeça, os cabelos cobriam sua face, mas ela soprou a franja para o lado e os seus azuis inundaram o olhar de L.

-Vai ficar aí me olhando seu imbecil? Me desamarre, ela deve voltar a qualquer momento – Disse no seu costumeiro tom entre a irritação e o sarcasmo.
-Por que eu faria isso? Nem sei quem está voltando. Devo estar delirando.
K baixou a cabeça e suspirou, disse um palavrão silencioso e voltou a olhar para ele, mas agora sorria de um modo diferente, quase amigo.
-Eu preciso que você me solte. Não há tempo agora para explicações, mas eu juro que assim que sairmos daqui eu te explico tudo.
-Eu não vou fazer isso. Minha vida virou uma bagunça, e você é culpada disso.
– Não virou. Você não entende. Você criou isso. As coisas não são como você pensa, na verdade é você quem está preso. Me solte, por favor.
K começou a soluçar, e L agora não sabia o que fazer. Queria sair dali, nunca mais ver aquele rosto, mas também sentia que precisava entender aquilo. Louco ou não, era necessário embarcar de vez na loucura e ir até o fim. Ele dizia isso para si mesmo, mas não tinha essa certeza. Na verdade sentia apenas vontade de permanecer naquele escuro para sempre.
-Não L! Não se entregue! É isso que ela quer.

K implorava, chorava, soluçava, mas ele não ouvia. Era como aquele dia na água, aquele dia.

Quando L sentiu o golpe, ele já estava no chão. E ela continuou batendo nele. K, a K oriental, estava furiosa. Ela batia, chutava, arranhava, mordia.

A dor era imensa, mas era algo distante. Mesmo os gritos de K não passavam de sussurros distantes no fundo da sua mente. L via-se refletido no chão cinza, uma imagem opaca que aos poucos foi ficando mais nítida. Não era o rosto que ele costumava ver no espelho, o rosto que ele achava que via no espelho todas as manhas. Aqueles olhos azuis, aquela outra personalidade. E foi como se um mergulhasse para dentro do outro. L ficou flutuando por um tempo que não soube determinar. Nada consciente, as ideias fluíam de um modo natural, sem imagens, sem palavras. Era apenas informação que estivera guardada. Quando abriu os olhos, viu a K chinesa ainda batendo nele. Mas ele não estava de cara para o chão, estava amarrado onde antes estivera K. Ele era K. E não era. Era L amalgamado com K. Ainda incompleto, mas diferente. O vazio diminuíra.

-Desgraçado! Desgraçado!
K batia nele/nela. E chorava. Seu nariz escorria, seus lábios estavam apertados de uma forma estranha, meio raivosa, meio triste. Os olhos puxados muito vermelhos, e o nariz escorrendo. Sentiu pena.
-Por que você fez isso comigo? Por quê?
-Eu precisava, você sabe.
– Não! Você não precisava, você foi egoísta. Você sempre é egoísta!

Então a K chinesa começou a arrastar L/K pelo corredor com cadeira e tudo. Eles se debatiam tentando se soltar, ao mesmo tempo em que imploravam que K tivesse misericórdia. Mas ela não queria ouvir. O mundo acabara, dizia. Era o momento final. Ela tentou resolver do melhor modo, mas nunca era ouvida, logo ela que era a parte racional de tudo isso.

-Escuta K, a gente está junto agora, podemos sair disso. Você não percebe que está sendo irracional?

K soltou a cadeira. K/l sentiu o baque no chão duro. Um cheiro de flores envolvia o local. K sentou na barriga de L/K. Seu rosto estava desfigurado pelo choro.

-Irracional? Eu? Sim, você faz uma merda dessas e eu sou irracional? Por que você tinha que sair correndo do escritório por causa do que P disse? E se não bastasse isso, ainda se jogou na frente de um carro e talvez a gente nem esteja mais vivos! Você não notou esse lugar escuro e esse cheiro? Acabou! Vocês ferraram com tudo!
-Para onde você está me levando?- Perguntou K/L sem muita esperança de que saber isso mudaria alguma coisa.
-Eu não sei. Nunca estive aqui, mas espero que tenha algum buraco ou algum lugar alto para eu dar um fim em vocês.

K/L estremeceu. O medo era angustiante, ele penetrava seus poros como a escuridão silenciosa fizera antes. Sentiu vontade de chorar e chorou. Estava presa ali, seu corpo inteiro doía e aquela pessoa que amava queria…aquela pessoa que amava? K/L surpreendeu-se com esse pensamento. K/L amava K com todas as suas forças! Era como aquele dia na piscina, um amor tão grande, tão profundo, que absorveu seu mundo inteiro num silêncio confortável. E aconteceu.

K estava de joelhos num solo árido e pedregoso. Ela soluçava alto. Tudo ao redor era cinza, mas um cinza morto. Até onde a vista alcançava, era tudo cinza. O céu era cinza. Um imenso deserto. K/L não estava mais na cadeira. Estava em pé e contemplava a dor de K e entendia que o imenso deserto cinza era a prisão onde ela estivera durante muito tempo. Até o dia em que K, a de olhos azuis, rompera o véu da ilusão.

K sentiu o toque suave sobre suas costas. A dor imensa era como uma pedra no seu estômago. Mas a mão quente era mais forte. K fechou os olhos. O mundo esvaiu-se por um ralo qualquer, e o céu evaporou.

O silêncio durou muito tempo. Então os olhos se abriram. Diante de si um campo florido que se perdia no horizonte distante. A dúvida não existia. A dor era uma cicatriz profunda, mas podia ser tratada e seria. Uma multidão de borboletas azuis movia-se ao seu redor e produziam um som agradável como uma orquestra muito bem afinada. O sol brilhava, aquecia, mas não perturbava. E o cheiro que antes parecia morte agora indicava a vida, a plena vida. A mente integral, e a personalidade resgatada.
As borboletas começaram a girar ao seu redor, o sol não era mais visto, nem as flores e o verde. O azul das borboletas foi se adensando, escurecendo. Então tudo retornou ao silêncio.
***

A primeira coisa que viu foi o sorriso cheio de dentes da mãe, e sentiu a segurança do seu abraço perfumado.
-Você acordou! Eu chorei tanto! Graças a Deus e à Nossa Senhora!
-Quantos dias?
-Quase uma semana, mas o doutor Thiago disse que você tem muita sorte, não quebrou nada! Quando eu vi o carro achei sinceramente que você tinha morrido, quase morri junto! Mas o Doutor, aquele médico bonitão, disse que está tudo bem. Você teve uma concussão ou algo assim , mas agora está bem.
-Mãe…
-O quê?
-Eu te amo!
Os olhos da mãe marejaram, os lábios tremeram e ela desabou. Há muito anos não ouvia aquilo. Muitos anos, desde aquele maldito dia!

Saiu do hospital poucos dias depois. Sentia algumas dores pelo corpo, e levaria um tempo para se curar totalmente das escoriações. Mas estava muito feliz.
No dia do seu retorno ao trabalho, levantou bem cedo e passou quase uma hora se arrumando diante do espelho novo que o pai comprara. Só via o seu próprio rosto, o seu verdadeiro rosto. Comprara roupas novas e pediu que a mãe doasse toda aquela roupa esquisita que acumulara durante anos. Reformou seu quarto.

Sentia-se a pessoa mais linda do mundo, e talvez fosse mesmo. Abriu a porta e sentiu a brisa. Usava roupas leves e coloridas, não de um colorido pesado, mas o de um campo florido.

Desceu os degraus que levavam até o portão. O carro do pai já estava diante do portão. Parou por um momento para apreciar o rosto refletido nos vidros do carro. Seu rosto brilhava com uma felicidade que há anos não experimentava, seus cabelos negros e encaracolados estavam muito bem alinhados. Os grandes olhos castanhos refletiam a vida que estivera escondida. A pele cor de ébano do rosto não trazia mais as marcas do atropelamento. Leila sentia-se uma bela mulher naquela manhã. Pensou em Pedro. Sorriu timidamente. O pai apressou-a de dentro do carro, iam chegar atrasados. Jogou um beijo para a mulher negra que observava da janela da sua casa, a mãe retornou o agrado.

Abriu a porta, entrou no carro e nada mais foi como antes.


Isaias Oliveira Isaias Oliveira
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