O Escudo de Aquiles

Hospital da Polícia. Olho a fachada com cara de quartel, minha vontade é chutar alguma coisa, chutar a cabeça de alguém. Eu acaricio o cabo da PT para me acalmar. É uma merda, cara, uma merda!

Eu não estou aqui por acaso, lá dentro tem um companheiro…se é que eu posso chamar de companheiro um cara que não respeita a porra da farda que veste! Sério cara, sério mesmo, que eu queria que esse filhadaputa tivesse batido com as botas. Sabe? Que não ficasse aí sugando a grana da instituição!
Mas o cara era meu parceiro, quero dizer, não posso simplesmente negar as coisas como elas foram…

Sentamos praça juntos , eu e o Roney. Cara, tudo o que eu queria era ter uma PT na cintura e mandar uns malacos mais cedo para a casa do capeta ! Acho que esse é o sonho de todo moleque que entra na polícia, sabe, a gente mora na periferia e você tem que decidir, ou entra para o crime ou vira polícia, duas profissões que não exigem muito mais que coragem e uma boa dose de loucura. Vi muito neguinho abotoar o caixão, e vi muitos mais com a vida fodida depois de uns anos de cadeia. É isso meu chapa, a gente tem que decidir e eu decidi que não queria isso para mim. Só restava a polícia cara, sim a polícia, essa mãezona que aceita a gente de braços abertos.

E o orgulho chefe? A família inteira na formatura, tua mãe com os olhos vermelhos. E você com o uniforme novinho em folha. Bacana.
Claro que eu estou vendo a coisa pelo meu lado, nem todo mundo pensa a mesma coisa, tem uns caras que só querem a tal da estabilidade, o tal do respeito que não existe.

A verdade é que quando você está na academia, você sente vontade de chorar, de sumir. Lá o bicho pega, você tem que ser condicionado e para isso eles fazem tudo o que podem para que você pire, que desista logo e vá ser repositor de supermercado!

Eu sei que tem muito babaca que vai dizer que eu sou preconceituoso e burro. O fato, meu chapa, é que polícia vive de preconceito. Você tem que ver o cara pelo que tá diante dos seus olhos, que esse negócio de ver a alma é para psicólogo. A gente vê o que tá na cara, e vou te dizer meu chapa que a gente quase sempre acerta. Vagabundo se veste como vagabundo, fala e age como vagabundo. Para mim é claro, neguinho parece vagabundo vai ser tratado como tal.

Eu e o Roney éramos vizinhos de beliche no alojamento. Quando eu vi o cara, sério mesmo, achei que ele era frutinha demais para a coisa, que tinha hábitos muito requintados para a realidade da polícia . Cara, eu sou polícia, mas não sou burro, eu sei ver as coisas, até leio uns livros de vez em quando.

O Roney era “classe média”, não era o tipo de cara que procura a carreira policial como soldado. Pois o militarismo é assim cara, igual nas antigas quando os ricos eram oficiais e o povão incorporava como soldado. Bacaninha hoje já entra nas forças militares como oficial, só os pés rapados como eu entram como praças.
Eu perguntei para o Roney por que ele não tentou o curso para oficiais, mas ele me olhou com aquela cara que escondia um sorriso, sabe, a pessoa tá rindo, mas o rosto não muda. Você percebe por causa dos olhos.

“Que graça tem entrar por cima? Eu quero começar de baixo, quero alcançar o oficialato por meu por meus próprios méritos”

“Ah ta!”- eu disse- “Você quer ser bucha de canhão para ser coronel? Burrice!”.
Falei e ele riu na minha cara, deixei de lado, se queria ser trouxa, problema dele, eu já sabia qual era a minha, meu negócio não era ser oficial, mas mandar uns para debaixo da terra! Certo, você me pegou. Nem todo polícia é assim, tem idealista, guerreiro, tudo, tem todo tipo de gente na polícia, mas esse era eu, meu chapa, eu.
Só que é o seguinte, eu sempre fui meio bruto, eu confesso que é difícil conviver comigo, e o Roney parecia o parceiro perfeito, pois sempre tem que ter um cara que age pela razão senão a gente faz uma cagada atrás da outra.

O que me preocupava era aquele jeito meio boiola dele, não me entenda mal, o cara era padrão, foi o primeiro colocado em tudo. O tempo dele na corrida era sempre 10 segundos melhor que o do segundo colocado e ele não tirava menos que 95 % de aproveitamento nas provas teóricas. Ele era também o melhor atirador do grupo. Por isso eu aceitei o cara como meu parceiro, eu por pouco passei na parte cerebral do curso, mas no resto eu estava ali, arranhando a traseira dele.

Tem muita gente que não sabe o que um polícia aprende, embora, sou sincero, a gente aprenda mesmo é na rua, fazendo. Seja como for a corporação tem que dar um verniz na gente. Você não vai colocar uma arma na mão de uma cara que nem sabe tirar o carregador.

Um cara como o Roney, parceiro e padrão, não podia ser viado. Eu queria acreditar que o cara era espada! Porque para mim é o seguinte, fulano nasceu com um pau no meio das pernas ele tem que ser macho, se fosse para ser fêmea, Deus teria dado outra coisa para ele. Esse negócio de viadagem é sem-vergonhice.
As coisas iam bem cara, saímos do curso e fomos para o batalhão. Escolhemos o batalhão mais de periferia possível, para trabalhar mesmo.

Um dia a gente chegava da ronda, o Roney dirigia, porque eu queria estar livre para dar uns tiros se precisasse. Era fim do meu plantão, eu tava zuado de ter ficado a tarde inteira atendendo ocorrência furada, briga de marido e mulher, perturbação do sossego, bêbado, gatinho em árvore…

A gente parou e começou a manutenção da viatura, porque comigo é assim, eu gosto de entregar o material tinindo para a equipe que recebe.

Eu tava ali limpando o para-brisa, com uma vontade louca de ir para casa dormir um pouco, quando o pano voou da minha mão. O Roney que tava ali passando um troço no pneu se abaixou junto comigo para pegar o pano. E ficamos ali um pouco, um olhando para a cara do outro.

Não sei cara, negócio louco. A mesma cara do riso sem riso. Era meu chapa mas, porra, vai se foder!

“Deixa disso velho”- eu disse- “Tá me estranhando?”

Nessa um tal de Valadares começou a cacarejar que “o casal estava em núpcias”. Porra, não aguentei cara, fui para cima do lazarento. Mas o Roney entrou na frente.
“Porra velho, sai da frente”

“Você quer pegar cadeia por causa desse otário?”

Sério, o cara tem o dom. Eu não consigo dizer não para o Roney. Quando olhei o tal do Valadares ele estava branco. Ele sim era uma bichona! Tempos depois esse mane estava num negócio furado, fazendo segurança numa boca . O pessoal chegou metendo bala e o Valadares tomou chumbo no meio das idéias. O comando não quis a vergonha de ter um policial metido com o tráfico e disse que o policial estava “infiltrado” e “morreu em serviço”.

Às vezes eu estava na viatura com o Roney, e pensava se ele era ou não boiola. Eu nunca tinha visto o cara com mulher nenhuma, e sempre que eu mostrava uma gatinha ele não se importava, olhava sem vontade, sem os olhos risonhos de sempre. Mas é verdade que eu nunca tinha visto ele com Homem…

Eu estava maluco com aquele negócio, olhava, sei lá. Se ele fosse viado, sério mesmo, eu ia pedir para trabalhar com outro cara. Quem sabe o Silvano? Sim o Silvano era o cara, polícia de verdade e macho. Aquela cara máscula de estátua grega, pernas…

Aquele negócio estava me deixando louco, pior que eu não conseguia pensar em mais nada. Eu estava sempre pensando nisso, a coisa me corroía por dentro.
Porra chapa, eu não conseguia entender aquilo velho, coisa muito louca. Cara eu saía, ia p’ra umas bocas que conheço, pegava umas putas bonitas, mas o negócio não me deixava. A cabeça estava a mil, sempre com o Roney azucrinando minhas ideias por dentro…

Teve um dia que eu não aguentei mais. Achei uma amiga aí e a gente resolveu esticar para o apê dela. A gente tava lá no maior clima, a menina tava nuazinha cara, me beijando por cima, por baixo. Então revolvi abater cara. Trepei na mina e comecei o trabalho. Pô cara, me deu uma parada louca , sei lá.

Foi porque eu comecei a pensar naquela parada, imaginei o Roney, assim, nu como a amiga embaixo de mim, assim, com aqueles olhos de riso. Pô chapa, o Roney lá cara, levando vara e rindo com os olhos. E pedindo mais. E me deu um tesão do cacete! Eu tava maluco cara. Joguei a mina de quatro cara e mandei brasa, ela gemia, mas eu não via a garota, aquele traseiro forte, cheio de músculos. Eu tava louco velho, eu queria entrar inteiro ali, queria que a gente fosse uma coisa só. E eu puxava o Roney para mim cara, ele implorava que eu não parasse e eu sentia ainda mais vontade, mais tesão. A amiga gritava, gozava, mas eu só ouvia a voz de barítono do Roney. Cara, gozei como um cavalo no traseiro dele. Ficamos ali, naquela posição, eu acariciando as costas lisas do Roney e ele me chamando de “meu soldadinho”.

Eu acariciava aquelas costas, aquela bunda e falava seu nome. Fui jogado no chão, vinha tapa de tudo quanto é parte, senti os dedos dela no meu saco, fiquei ali no chão, gemendo. A pior coisa do mundo é um chute descalço no saco! Os dedos entram entre as bolas e a dor faz a gente chamar a mãe!

Não teve explicação. Eu vinha pela rua me sentindo mal p’ra cacete! Porra velho, será que aquele filhodaputa tinha me contaminado com aquela viadagem? Minha cabeça zunia. Eu queria matar o cara. Eu sentia um ódio que nunca senti, mas então me dava aquele tesão de novo, eu imaginava aquelas costas e aquela voz me chamando. Você sabe o que é isso? Um cara como eu sentir essas coisas? Eu tinha que fazer algo, tinha que lavar a minha honra naquele desgraçado, naqueles olhos que me enganavam!

Fui na casa dele para botar isso a limpo, mas ele não estava lá. Fui nuns outros lugares, mas também não achei o Roney. Entrei num boteco.

Pedi uma cerva e essa cerva pediu mais dez amigas. Eu tava bem, to acostumado. Resolvi respirar um pouco, o álcool me deixou bem melhor. Desci uma rua e achei uma pracinha, sentei num banco e fiquei ali pensando na vida. Era uma praça pequena, de periferia. Sabe, um pedaço de terra pública que não servia para nada até que um político resolve por um banco ali e plantas uma flores.

Fiquei ali uma meia hora, eu já não estava com raiva, pensava no Roney com muito carinho, ele era meu chapa. Era certo esquecer aquela bobeira, eu estava confuso, muito trabalho…foi quando eu vi.

Era o carro do meu parceiro, circulou a praça e estacionou do outro lado. O Roney desceu do carro, tinha um cara com ele. Eles não me viram. Sentaram no capô e ficaram ali rindo. E nunca tinha visto o outro cara. O Roney passava a mão pelo seu rosto, pelos cabelos. Não aguentei, era muita sacanagem! O filhadaputa era viado mesmo! E eu ali pensando nele com carinho! Eles ficaram lá um tempo, eu fiquei olhando. Louco de raiva.

Uma hora depois eu estava na frente da casa do Roney. Fiquei em frente ao portão. Ele chegou, quando me viu abriu um sorriso, ele quase nunca fazia isso. Eu pensando, ele lá de viadagem, beijando a boca de outro homem! Olhei naqueles olhos – eles também estavam rindo- me subiu uma coisa, um horror, um desejo de matar.

Acertei a cara dele, uma, duas, três…vezes sem conta. Não vi nada, só queria tirar aquilo de mim, aquela coisa suja, aquele desejo.

***

Os jornais falaram no dia seguinte do policial que fora espancado até quase a morte. Ele estava no hospital com traumatismo craniano, em coma induzido.
Andei a noite toda com um sentimento que parecia me consumir, uma dor na alma, um arrependimento que me devorava por dentro. Eu precisava ir vê-lo, pedir seu perdão.

Estou ao lado da cama, meu amigo diante de mim. Eu acaricio sua face ferida. Sinto o calor febril da sua pele, a barba por fazer. Tanta coisa já não é importante, tanta coisa!

Uma enfermeira me diz que é hora de sair, eu me abaixo e sussurro no seu ouvido:
“Eu te amo!”

Seus olhos sorriem.

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