O Filho do Diabo

Notícias populares, dos tempos sensacionalistas.

Alderico já era velho quando nasceu, foi o que passou pela sua mente quando o médico lhe disse que não viveria mais que seis meses.

O dia do nascimento de Alderico ficou para sempre marcado no imaginário dos moradores de Tumbinica como o dia em que o diabo pisou na Terra. Alderico nasceu com sete quilos, dos quais pelo menos dois eram de casco, e mais um pelo imenso nariz que lembrava uma probóscide mal formada. A mãe morrera no parto, não sem antes negar a criatura que dera à luz, sendo esse o princípio das dores do jovem diabo. Mas em Alderico a natureza resolvera pregar um peça, pois nunca a imagem de uma pessoa tanto negara sua alma. Era Alderico de uma alma proba, boa como um santo e inocente como Santa Emengarda, a que nascera virgem e virgem morrera!

Graças ao médico, Doutor Tamargueira, não fora o menino, se menino era, lançado às chamas ainda com os primeiros vagidos na garganta. Quis o destino que o doutor se afeiçoasse pelo enjeitado e fizesse dele o seu filho, o seu único filho. Pois casara-se uma vez, e antes que visse sua semente, a morte roubara-lhe a mulher, tísica e louca.

O homem resolvera devotar sua vida à cura do enjeitado, e anos a fio pesquisou e tratou o que considerava uma rara anomalia genética no filho. Desistira de recolher novas bodas, e junto com o menino e a irmã Emengarda, a solteirona beata que agora previa não mais que seis meses adiante no livro dos vivos, a santa.

Causou espanto o nascimento da criatura, mas logo o fato sedimentou-se em lenda e a imagem do deficiente bondoso cobriu de confusão o acontecido, de modo que ninguém mais acreditava que aquele jovem de pés chapados e tortos e com aquela deformidade entre os olhos fosse mesmo algo sobrenatural. Era um santo, dizia o povo, um enjeitado que a ninguém enjeitava e uma nobre alma encapsulada num corpo retorcido, como para mostrar aos homens por fora a crueza de seus próprios pecados. Deus espelhara naquela face todos os pecados do mundo, mas fizera surgir a beleza santificada nos atos de bondade que a todos votava.

Dali começou-se a heresia, logo combatida por padre Eustáquio, de que de Deus também era filho o…adversário dos Hebreus. Os olhos do padre chisparam naquele dia frio de maio sobre a insulada congregação dos pobres de São Genésio, encravada no coração da cidade e carregada de gente , posto que era festa em honra do santo padroeiro da cidade. Com o dedo em riste fazia o padre uma série de considerações bíblicas, cotejadas nos escritos dos padres da igreja e engrossadas com os ditos populares creditados a São Genésio. “O diabo quando caiu perdeu toda filiação, ele a si mesmo excluiu das beatitudes santas e fez-se filho das trevas, portanto, quem o quer santo não peca apenas contra Deus, mas contra si mesmo, pois faz de si um irmão do caído e alguém sujeito às suas mesmas penas!” Com imagens infernais e ameaças de fogo e tortura, ora citando as escrituras, ora Dante, sem perceber-se, fazia o padre tremer o coração da temente congregação. Quando descrevia o círculo, criado por ele ali mesmo, onde eram depositados os que faziam ser o diabo de Deus, onde ovos enormes de moscas pútridas davam vazão a vermes monstruosos que se infiltravam pelas peles dos pecadores e criavam chagas que eram elas mesmas cobertas de outros tantos vermes, gritou um homem do pavilhão, Zé Leiteiro, conhecido agiota, “Que havemos de Fazer ó padre, para purgar essa praga que se assentou sobre nossa cidade?”. Antes que o pároco pudesse retorquir que cabia a Deus o julgar e que aos homens bastava negar a heresia, rezar seus painossos e avemarias compungidos e aumentar as ofertas para a nova casa paroquial, levantou a multidão um grito horrível de vozes clamando que ao demônio se fizesse retornar ao abismo de onde viera. Verdade seja que ao padre soou isso como um desvario, pois ele mesmo, homem culto, já ouvira falar de outras deformidades semelhantes, como uma mulher que nascera com um enorme corno, e um homem que tinha no meio das costas uma única asa negra que o levava às alturas numa rapidez de jato, de modo que nunca fora sua intenção lançar o vulgo sobre a pobre criatura, mas apenas negar que a imagem que lhe deram, de cara do diabo, não condizia com a sã doutrina e nem que sendo ele o diabo, mas bom, haveria de se dizer que por isso fosse o diabo um dos Filhos de Deus, embora soubesse o padre, por meio de outros escritos condenados pela igreja, que o diabo era o diabo de Deus, nas palavras do protestante Lutero.

Quando a turba ameaçadora, alheia aos reclames do padre, chegou à porta do médico, quis o probo doutor, por meio de cultos discursos, demover o tolo intento. Mas lançaram-lhe mãos e dali o arrastaram pelo meio da cidade, sendo ele executado sob a frondosa árvore de onde se dizia que fora São Genésio martirizado. Emengarda a tudo assistia com resignada aceitação. Quando uma pira fora produzida e o cadáver do médico ardia entre as chamas apareceu Alderico na ponta da rua, trazia as costas nuas marcadas por chicotadas que ele mesmo se dera, e os braços abertos, como se para aceitar o seu destino. O pobre foi imediatamente amarrado e entre chutes e bofetadas era instado a chamar por seu verdadeiro pai. O jovem olhava a pira ainda ardente e dizia que outro pai não tivera. Depois de ser arrastado pela cidade, e de ter seu imenso nariz arrancado, foi o pobre amarrado à mesma árvore. Sob açoites e cusparadas recebeu um golpe forte de machado sobre a cabeça. Morrera logo. Emengarda a tudo assistia.

Quando os homens se preparavam para queimar o corpo, o solo tremeu, e os céus tornaram-se negros, chamas irromperam pela cidade a a árvore de São Genésio foi engolida, com corpo e pira, para dentro do solo, de onde subiram enxames de gafanhotos infernais e gritos horrendos de vingança. As ruas foram inundadas pelo sangue, e a matança correu a madrugada.

Era tarde quando a lua apareceu iluminando os vitrais da igreja e lançando a sombra do padre enforcado num dos madeirames do telhado sobre a imagem do Cristo crucificado numa das paredes frias. E a tudo, indiferente, Emengarda observava enquanto os anos se foram passando e ela muda frente ao calabouço da vida se viu perdida nos labirintos frios do único manicômio ainda em operação. Era louca, sempre fora, e passara a vida falando do seu irmão doutor e do filho com cara de diabo. Mas era louca, diziam, pois era filha única de um lavrador!

Quando a notícia fatal fora dada, quis a velha passar seus últimos dias enclausurada. Na noite que antecedera sua morte, jurou a enfermeira de plantão, que outras vozes que não a dela se ouviram no quarto, e a noite se enchera de luzes, como de uma imensa fogueira, enquanto pelos jardins se arrastava uma estranha figura com um enorme nariz e grandes pés inchados…

Isaias Oliveira Isaias Oliveira
Me siga
Latest posts by Isaias Oliveira Isaias Oliveira (see all)

2 Replies to “O Filho do Diabo”

  1. Avatar
    Renato da Conceição Filho

    Você é de qual planeta?
    O da literatura por excelência?
    Meus parabéns nobre escritor. Lanço aqui o fã clube do escritor Isaías, comigo de presidente!!!!!🙌🏿🙌🏿❤️❤️👍🏿👍🏿

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.