Os Mamutes

As nevascas vieram com força esse ano. A prefeitura suspendeu o voo de wingflies durante os períodos mais intensos. Eu precisava sair de casa. Decidi utilizar os trilhos públicos. Havia uma estação perto de casa. Com sorte não haveria mamutes pelo caminho. As manadas costumavam perambular por Colombo e por grandes trechos do Atuba nessa época do ano, mas devido às intensas nevascas, elas se deslocaram mais para dentro de Curitiba. Ouvi pelos prompts que um grupo grande se instalara na praça Tiradentes, bem perto da saída norte dos vapores quentes. Pena. Pensava em chamar um pessoal para um banho no lago termal da praça, mas os mamutes ficam inquietos com humanos nas proximidades. Não há registro de ataques, mas os censores alertaram para uma mudança nos padrões de agressividade da espécie, antes apenas vistos nos períodos de acasalamento.

O subtrain estava vazio, as pessoas preferem trabalhar remotamente quando o tempo não ajuda. Na verdade preferem trabalhar remotamente em qualquer tempo. Poucas profissões exigem tanta interação física direta quanto a minha. Eu faço inspeções nas highways informacionais. Verdade que em vinte anos nenhum problema foi registrado, mesmo porque os sistemas de proteção cuidavam de todos os detalhes. Mas devido a um acidente quando os serviços de segurança informacional ainda eram menos eficientes, incidente de que ninguém se lembrava mais, a lei exigia inspeções semanais.

Havia uma moça sentada umas duas poltronas longe de mim. Sua respiração estava pesada. Algum tipo de alergia. Como é que alguém se sujeita a ter alergia hoje em dia? E ainda mais por motivos ideológicos obscuros, como devia ser o caso dessa moça. O nariz estava bem vermelho, mas ela era bonita, apesar de ser muito clara e usar aquele corte curto e a tinta prata metalizada nos cabelos. Não sabia se ela tinha reparado em mim, suas lentes estavam penumbradas. Tentei uma hiperconexão com ela, mas seu hard pessoal estava bloqueado. Tudo o que eu via era o aviso de “usuário em conexão privada”. Ok! A pessoa encontra um outro ser humano num dia como esse e prefere não socializar. É uma típica curitibana de três décadas atrás. Mania de ficar julgando as pessoas essa minha. Nem conhecia a garota. Vai ver ela estava numa narrativa de ludodrive– pensei.

Desci na Estação Central, a garota continuava na sua desinclusão social. Atravessei os dois quarteirões que me separavam da Praça Tiradentes em poucos minutos. A neve parara de cair. Eu mal sentia o vento por trás da proteção térmica. Havia mesmo alguns mamutes na praça. Eles estavam agrupados, como se estivessem tentando se aquecer. Obviamente não era isso, pois esses animais conseguiam resistir às temperaturas do satélite Europa com quase nenhum controle ambiental. Produzir vegetais em grande quantidade em Europa já é mais difícil, por isso os mamutes não vingaram por lá. Mas não foi o frio, certamente não foi.

Fiz as inspeções, no retorno ainda observei os mamutes pela praça. O lago estava borbulhando convidativo. Dei uma boa olhada nos mamutes, não parecia que eles se importavam comigo. Fui até o deck térmico, despi completamente a proteção e me atirei nas águas quentes. Que delícia! Fiquei boiando de barriga para cima, inteiramente nu. Talvez alguém estivesse me observando, uma das câmeras. Mas quem se importava com um cara nadando pelado num lago termal cercado de mamutes num dia como esse? Com tanta coisa passando nos hiperdrives e as possibilidades infinitas dos jogos de realidade virtual plena, isso era quase impossível e para os sistemas inteligentes não havia diferença entre um humano com roupas de um sem. Fiquei boiando com a barriga para cima, os braços e pernas abertos, vitruviano. O céu cinza, familiar.

Uma onda passou sobre mim. Alguém pulou na água. Tudo bem, a densidade me impediu de afundar e engolir água. Um pouco entrou pelas narinas.
“Desculpe” – uma voz feminina.
Fiquei na vertical. Era a garota do trem. Sorria. Reparei nos olhos castanhos e na conexão imediata dos drives pessoais. Sônia. Não era ideologia. A avó decidira pela passagem. E ela estava com as lentes penumbradas revendo imagens familiares. Não era como um curitibano de trinta anos antes.

Nos perdemos naquela tarde cercados de mamutes lanosos. A praça iluminada artificialmente lançava as sombras dos mamutes sobre nós. Um ano depois fundimos nossos receptores sob a sombra daquela mesma manada de mamutes, no mesmo lago e sob o mesmo signo dos tempos. Depois disso fizemos duas viagens a Marte e conhecemos as estações de férias de Europa. Planejávamos uma longa viagem pelo cinturão externo quando os gêmeos vieram. Semanas depois, observávamos os fetos na estação de incubação. Registramos a intenção de nomes e saímos para a viagem, agora um pouco mais curta por causa do ritual de nascimento dos gêmeos.

Os anos se foram. Ainda inspeciono as highways, mas não com tanta frequência e quase sempre remotamente. Selena e Márcio decidiram emigrar. Ela atua na produção biológica de vida animal do instituto de terraformação de Alfa Centauri. Ele acompanha uma expedição científica perto da grande barreira de asteroides do limite delta da Galáxia.

Todo ano eu e Sônia comemoramos nossa união no lago da Tiradentes. Mas gostamos às vezes de patinar nas águas geladas do Parque Barigui. Agora os mamutes quase nunca saem dos limites de Colombo. A manada reduziu-se muito, ninguém entende direito por quê. É como se uma chateação da vida tivesse entrado neles. Sônia me diz que os mamutes têm também seu modo de passagem, como fizera sua avó anos antes, mas que era um meio natural. Eu começo a entender Sônia. Depois do secundo século de vida, a gente vai perdendo o gosto pelas coisas, pelas novidades. Mamutes vivem muito, tanto quanto a gente. E eles se cansam. Na verdade andamos cansados.

Estamos pensando em fazer a passagem. Já olhamos alguns mundos oníricos pelo catálogo, e até fizemos algumas imersões. Mas fica difícil escolher quando você ainda tem as limitações físicas, o verdadeiro encontro só pode se dar no fluxo dos dados. Decidimos fazer isso nos meus 250 anos. Esperamos reunir a família para o ritual no mesmo laguinho quente. Quem sabe os mamutes não aparecem?

Isaias Oliveira Isaias Oliveira
Me siga
Latest posts by Isaias Oliveira Isaias Oliveira (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.