Talvez eu seja uma farsa…

“Here’s the thing
You’re in love with a version of a person
That you’ve created in your head
That you are trying to, but cannot fix
Uh, the only thing you can fix is yourself
I love you, this has gone on way too long
Enough is enough”

in my head, Ariana Grande

Se eu me encontrasse com o meu eu criança, que chamo carinhosamente de Duduzinho, sinceramente, eu não sei qual seria a exata reação dele, mas sei que ele me diria algo parecido com essa frase acima. A maioria das pessoas que me conhecem sabe que costumo fazer monólogos como este, quem me conhece mais a fundo sabe que não só os escrevo como vivo um quase todo dia em minha mente, mas ainda assim, fico me questionando quando foi que eu decepcionei o Duduzinho sonhador de 2005.

“I wanna meet tomorrow. Yesterday, made me a fool today”
Hawaiian Mazes — BANKS

Digamos que nos últimos anos eu tenho me tornado cada vez mais cético para algumas coisas. Em alguns textos passados, mostrei meus medos sem perceber exatamente o que eles estão se tornando. Costumo dizer que eu nem sempre honro o que escrevo, mas dessa vez, o buraco conseguiu ir mais longe do que eu podia imaginar. Flertar com meu alter ego, desejar ser quem não posso ser, me fez perceber algumas coisas, se eu fizer uma rápida analogia, por exemplo, existem mais de um “eu”, um deles chamaremos de Eduardo Idealizado, onde ele é forte o suficiente, corajoso, que pensa muito em si, capaz de tudo, porém, ele é um Eduardo sem escrúpulos, onde sua “missão” é mais importe que tudo, do que todos. Considero esta uma consequência formada pelo meu eu cético a vida, onde esse ceticismo barato gerado pelas feridas do meu passado, ainda abertas, além do massacre ao meu idealismo que antes eu seguia.

“Say it’s hard to breathe inside my ocean, I gave you the deep, but you’re still floating. When you’re gonna treading water and the wound got deeper”
Stroke — BANKS, adaptado

Digo isto não é a toa, e aqui reforço o porque não podemos ignorar a raiva, pular ela, pois uma vez que toda ela, acumulada, vir a explodir, não haverá barreira capaz de suportar tal impacto. Negligenciar a raiva é como a confundi-la com o ódio, onde raiva é uma emoção pontual, gerada com propósito, por desconforto, por injustiça, pelo o que for, enquanto o ódio lhe é implantado, como uma praga que te cega de uma maneira despretensiosa. A consequência é uma reação em cadeia imparável, de dor jamais descrita por palavras.

O que quero dizer dizer com isso é que fingir que seus sentimentos não existem, quaisquer eles que sejam, só te causam feridas que nem o tempo conseguirá cauterizar, cicatrizes que não se fecharão direito. Elas até podem te lembrar do que é feito, mas também podem mostrar que tudo que você acreditou ou foi, agora não existe mais.

Passei a maior parte do tempo negligenciando meu próprio bem-estar para que eu pudesse ser a minha melhor versão, sempre disponível aos outros, mas quando isso chegava a mim, eu sempre achava que eu não era digno do mesmo. A cada crise que eu passava sozinho no meu quarto, sempre renegava ajuda até mesmo do meu lado mais sombrio, que insistia em aparecer para me atormentar, eu nunca tinha paz. Detalhe que até hoje não sei qual seria o limite dele.

Eu sempre queria ser e estar sozinho, pois fiquei acostumado a passar por esse tipo de coisa sozinho, achava que eu ia acabar dependendo dos outros, hoje em dia eu penso “p*rra, nem sempre é depender, é só acolher”, mas enfim, eu queria pagar que eu estava bem para poder ajudar todo mundo, eu queria abraçar o mundo, mas para isso, eu tinha que estar bem, pelo menos era o que diziam. Hoje talvez eu só flerte com o reflexo da minha ignorância, talvez eu seja mais uma alma que se sente despreparada para o que o mundo tem pra oferecer, talvez eu só queira reconhecimento para me sentir vivo e no fim só acabei me confundindo com alguém que não liga para ninguém. Bem no fim, eu sou meu próprio vilão.

“Everything you are made you everything you aren’t. I saw potential without seein’ credentials. Maybe that’s the issue.”
in my head – Ariana Grande, adaptado

Confesso que nos últimos meses, até nos últimos anos, eu tenho me visto de maneira empírica, me submetendo a experimentos emocionais que agora acho sem necessidade, mas não sei exatamente, tudo porque eu queria entender o que era me expressar e se alguém realmente liga para isso, sabe? Cheguei num ponto onde eu não aguentava mais vestir uma máscara que esbanja um sorriso falso, mas que se quebrava quando eu chegava em casa. Eu quero, sei la, sentir o que tenho para sentir sem me preocupar, quero ficar feliz, triste, ser livre, expressar quando precisar, ser acolhido, quero viver, sendo fraco, forte, estúpido, sei la, quero ser eu sabe? É por isso que eu acredito ter errado com o little Eddy, ele queria sentir, ser a própria bagunça e estar bem com isso e eu não sei exatamente onde eu cheguei.

Já que falei do Duduzinho, voltemos a ele junto com a analogia dos meus vários eus. O eu idealizado pelo nosso pequeno Dudu é o completo oposto do que eu idealizo e é ai que eu errei com ele e foi exatamente aqui que reafirmo que não honro nem mesmo o que escrevo. Sempre tive medo de ser corrompido pelo que me não me faria bem, medo de perder minha essência, não ser mais eu, mas quem eu quero enganar? Eu já não sou o eu que ele era a muito tempo atrás. Tudo bem que ele não me ajuda muito, já que o ideal dele é ideal DEMAIS, via a vida de um jeito lindo e pacífico, o que é um pouco impossível tendo em vista como o mundo está hoje, mas dizem que o impossível é só questão de opinião, não é mesmo?

“The day I went down with my wings lost
Those dark days when I was trapped
You should have ended me when you still have a chance”
How You Like That — BLACKPINK

Mas ao mesmo tempo que eu me culpo por ter me perdido dele, eu culpo um pouco o externo. Tive uma linha de raciocínio depois de uma sessão de psicólogo que me deixou atónito demais, mas é que esse, chamemos ele de Eduardo babaca, na verdade, ta mais ao meu arredor do que eu tenha percebido. E pior, geralmente eu me apaixono por ele, com certas ressalvas, é claro, mas o que quero dizer é que, aquela pessoa que brinca com seus sentimentos ou não liga muito para eles, até manipula você em alguns casos, ou lembra de você quando quer algo, digamos que alguém que não se importa muito com você, que não está tão presente na sua vida e parece que ta de boa com isso. Bom, acho que com o tempo eu comecei a olhar aquilo como alguém inalcançável e que não se machuca por qualquer coisa, como alguém que tem o ego constantemente acariciado como eu fazia com muita gente, alguém que fizesse você se rebaixar ao nível dela ou até mais para baixo e para piorar eu comecei a querer ser isso. Era como se eu quisesse ser babaca por pura vingança. Quando eu me toquei disso, eu senti que meus últimos anos tenham sido uma completa mentira e eu comecei a achar que era tarde demais para correr atrás do prejuizo.

Digamos que por isso que o trecho da música da Ariana “but gravity seems to be the only thing that’s pulling me” tem feito muito sentido ultimamente.

“Sorry if I’m up and down a lot, sorry that I think I’m not enough. And sorry if I say sorry way too much”
needy — Ariana Grande

Algumas pessoas (as capacitadas para dizer esse tipo de coisa) dizem que abraçar e acolher seu eu criança significa abraçar e acolher cada pequeno pedaço de si, inclusive o problemático. Então meu querido Duduzinho, isso é, na verdade, um pedido de desculpas a você e por dois motivos. O primeiro é por ter assassinado friamente os seus ideias, assim como fizeram comigo, eu não devia ter permitido isso. O segundo, bom, não é sua culpa e nem minha, mas o seu idealizado não condiz totalmente com o real, ele não é muito palpável, vamos dizer assim.

“Maybe I’ll smile a bit, maybe the opposite, but pray that they don’t call me thankless”
Roaring 20’s — Panic! at the Disco

Então quero te propor algo, um consenso entre nós. Basicamente, podemos ter um equilíbrio da ideia de ideal, onde mantemos o seu lindo ideal de paz e juntamos com o que é mais plausível, como o que fazer frente a situações problemáticas. Digo isso pois o que nós queremos mesmo é sermos sinceros, com nós mesmos e com os outros, queremos liberdade, igualdade, fraternidade, bem iluminismo mesmo. Queremos ser reconhecidos pelo o que fazemos, ser artistas, cientistas, inteligente, esforçados, que abraçam suas próprias dores e tiram delas a mais linda flor de lótus. Queremos um mundo melhor, saber que atuar localmente já é um passo para mudar globalmente, queremos sonhar mas manter nossos pés no chão, ter aquela sensação gostosa de felicidade, seguir nossos instintos, reviver aquele tesão pela vida que a gente tanto fala, considerando quem está a nossa volta e parar de negligenciar o nosso próprio eu, sabe?

“It ain’t nothing wrong with saying I need me time”
NASA — Ariana Grande

Então Dudu que deixei de lado por tanto tempo, prometo para você que cuidarei de quem está na minha vida, assim como vou cuidar e desenvolverei melhor o Edu artista, que o Edu cientista vai ser um ótimo Edu, que o Edu budista vai guiar nossos ideais e que o Edu real vai ficar cada vezes melhor, por ele.

A partir de hoje, eu vou honrar o que escrevo e vou te honrar, para poder cuidar de nós dois.

“Give you the whole world, I’ma need space
You know I’m a star, I’ma need space”
NASA — Ariana Grande

Eduardo F. Maia
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