Um Conto Fúnebre

A gente pensa que nunca vai morrer, ou age como se nunca fosse. E lá estava eu caído no asfalto. Meu braço esquerdo jazia a uns quatro metros do meu tronco. Por sorte, o resto de mim não foi destroçado. Eu sempre temi ter que ser velado em caixão fechado.
Me jogaram como um pedaço de carne morta – eu era uma pedaço de carne morta- na caixa do IML. Me colocaram numa mesa metálica com um ralo embaixo de mim, eu estava nu.
Uma moça comia um sanduíche de atum ao meu lado, ela terminou o sanduíche e deu uma boa olhada em mim. EU ESTAVA NU Ela disse para alguém que eu até que era gostosinho… Me virou de costas e deu um tapa na minha bunda. Que desrespeito!
Então ela me virou em decúbito dorsal. A desgraçada tinha um bisturi na mão esquerda – minha vó dizia que canhotos tinham parte com o cão, ela era canhota. Ela fez uma incisão na altura do pescoço e foi descendo verticalmente até…até onde deu.
Depois fez um corte horizontal quase de um ombro no outro um pouco abaixo da clavícula. Depois ela foi cortando a carne por baixo da pele. Então ela afastou a pele e expôs os ossos por baixo do meu peito. Aí pegou um alicate e cortou minhas costelas. Por fim retirou a placa óssea. Pelo reflexo do suporte da lâmpada eu podia ver meu coração.
Uma coisa horrível aconteceu aqui, tanto que, acho, desmaiei ou seja lá o que faz um morto numa situação dessas. Não foi a visão das minhas entranhas. Ela me beijou na boca! Imagina, me beijou na boca! A visão daquele aparelho, tinha restos de atum nele…
Quando acordei estava numa maca esperando vaga no freezer. Havia mais duas pessoas ali. Uma senhora que morrera de enfarte e um ladrão que foi morto pela polícia. A velhinha chorava muito, eu tentei consolá-la, mas ela me mandou calar a boca. Perguntei para o ladrão como ele tinha morrido. Roubou o carro de um polícia e levou chumbo. Me disse que deixou três filhos e um dívida de dois mil com o trafica do bairro. Triste mesmo. Nessa altura a velhinha parou de chorar e começou a rezar uma ladainha entrecortada com risadas histéricas. Troço louco, quase esqueci onde estava. Alguém de dentro do freezer mandou a velha calar a boca, devia ser um ateu.
Do fundo alguém gritou que estava tentando descansar, engraçado, logo aquilo estava parecendo uma briga de condomínio.
Meu irmão veio reconhecer meu corpo. Acredita que depois que o deixaram só comigo ele começou a me dar um esporro? Disse que tinha me avisado que a porcaria da moto ia acabar me matando e coisas do gênero. Por fim desabou num choro resmungado. Essa foi a pior parte. Encheu minha cara de ranho…
Nas duas horas seguintes conversei com o pessoal. Um cara que morrera queimado – ele era uma coisa preta e indefinível- me disse que adorava churrasco, acha que era uma forma estranha de premonição. Um outro cara trabalhava numa fábrica de embutidos, caiu numa moedora. Estava preocupado porque agora não havia ninguém que tinha conhecimento suficiente para limpar a máquina. Ele era único. Era mortadela aquilo nele?
Vieram me buscar. Me lavaram, costuraram o braço no ombro com um pontos gigantes de saca de feijão, sinistro!
Na funerária me colocaram terno. Eu sempre disse que queria ser enterrado de camiseta e calça jeans, mas eles respeitam a gente? Eles não tão nem aí p’ro último desejo de uma cara!
Pior foi a gravata. Eu sempre ficava imaginando o que acontecia com um morto de gravata. Você sabe, o pescoço vai inchando e a gravata começa a apertar…terrível.
E as flores? Odeio flores. Na real eu queria ser cremado, sem terno nem flores.
No velório uma choradeira dos infernos. Minha vizinha, aquela velha gorda, feia e fofoqueira colocou a mão na minha testa. Na real cara, eu queria morder a mão dela. Eu queria poder levantar só um pouquinho, nem que fosse para matar umas três daquelas velhas do coração. Eu não disse? Tinha um monte de velhas lá, aquelas beatas que adoram um velório. Só para fofocar e comer pão com mortadela.
Minha tia disse que foi a vontade de Deus e que eu sabia que ia morrer por algumas coisas que havia dito. Porcaria. Eu não queria morrer, se Deus queria me matar deveria ter me consultado antes.
Pô, você fala umas besteiras sobre morte, ninguém presta atenção porque você não morre, um dia você bate com as botas e os babacas pensam que você sabia que ia morrer. Se eu soubesse que ia morrer esmagado por um caminhão aquela manhã eu não teria saído de casa. Depois de morto isso perde todo o sentido, quero dizer, como dizia meu professor de filosofia, toda essa porcaria de metafísica religiosa.
Minha mãe trouxe um padre para o meu “serviço fúnebre”, que maçada! E eu sem poder dizer nada, toda aquela história de consolo e o cacete! Eu ia ser sepultado, ia ser comido de bicho, apodrecer e virar pó. Por fim seria só um nome numa lápide que ninguém lembrava quem foi, mas que tinha morrido aos vinte e três anos. E só.
Aquilo era um saco. As minhas últimas horas e eu as passaria ouvindo um sermão interminável sobre a vida eterna, logo eu que só acreditava na morte eterna!
Já que estava morto mesmo resolvi dar uma blasfemadinha. O padre dizia uma palavra e eu um palavrão. Um “amém” e eu “merda”.
Depois disso a coisa até que foi divertida. Cada pessoa que vinha pôr a mão na minha testa e dizer o quanto eu fora bom ouviu, ainda que sem ouvir, o quanto ele ou ela era hipócrita. Adorei dizer para o meu vizinho que ele era um corno, que até o cara do gás havia…
Cara, só me cortou o coração minha mãe ali em prantos. Muito triste.
No dia seguinte me enterraram.
No começo foi sinistro, o silêncio.
Mas tudo foi passando, eu nem lembrava que estava em decomposição. Conheci muita gente legal. A gente costuma sair à noitinha para assustar quem vai fazer macumba no cemitério. Nas noites de lua cheia a gente senta nos túmulos e passa a noite cantando e contando histórias sobre os vivos.
Minha mãe vem sempre me visitar. Na última vez percebi que logo ela vem morar comigo.
Agora tenho muito tempo livre e nenhuma obrigação.
Até arrumei uma namorada.

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